Aprofundamento · Decisão sob pressão
Por que profissionais de alta performance também precisam de terapia
Você tem o currículo, o cargo, o respeito da equipe. E ainda assim há um peso que não consegue nomear direito. A crença de que sucesso deveria imunizar contra sofrimento é o primeiro obstáculo, e ela costuma ser mais forte, não mais fraca, em quem tem mais a provar.
Você chegou até aqui fazendo tudo certo. Passou por processos concorridos, construiu um currículo que abre porta, foi reconhecido antes do que era esperado para a função. E mesmo assim, numa terça-feira qualquer, depois de fechar o último email do dia, sente um vazio que não consegue nomear direito. A primeira reação não costuma ser procurar ajuda. É se perguntar o que há de errado, já que, pelos critérios que você aprendeu a usar, não deveria haver motivo. Currículo forte, cargo bom, respeito da equipe. Onde é que isso deixa espaço para sofrer? Essa pergunta, mal formulada, é o primeiro obstáculo, e é sobre ele que este texto trata.
A conta que não fecha: sucesso não é o mesmo que imunidade
A crença por trás da hesitação raramente é dita em voz alta, mas ela organiza a decisão de não procurar ajuda: se você é competente o bastante para chegar onde chegou, sofrer psicologicamente deveria ser uma contradição. É uma conta que parece lógica e não é. Competência e sofrimento não disputam o mesmo espaço, eles convivem, porque o que produz desempenho, a vigilância constante, a cobrança que você aprendeu a internalizar antes que alguém precisasse cobrar, o hábito de não afrouxar nem quando ninguém está olhando, é com frequência o mesmo conjunto de hábitos que desgasta por dentro. A pesquisa sobre por que as pessoas evitam buscar apoio psicológico tem um nome específico para o obstáculo que está sendo descrito aqui, autoestigma, a vergonha antecipada de precisar de ajuda, medida de forma sistemática pela primeira vez por Vogel, Wade e Haake em 2006. O achado central do estudo deles não é que quem sofre mais procura menos. É que o autoestigma funciona como uma variável própria, separada da gravidade real do sofrimento, e ele tende a ser mais alto justamente em quem constrói a própria identidade em torno de autossuficiência e competência, o perfil de quem tem currículo forte.
O disfarce que engana até quem está usando
Um dos motivos pelos quais esse sofrimento passa despercebido, inclusive por quem sente, é que ele raramente aparece com a cara que os livros de psicologia descrevem. Ele aparece como excesso de trabalho, como irritação com detalhes pequenos, como uma tensão no corpo que você chama de estresse normal do cargo. A dificuldade de identificar e nomear o próprio estado emocional interno é um construto estudado na psicologia desde os anos 1970, e uma das ferramentas mais usadas para medi-lo, a Escala de Alexitimia de Toronto de vinte itens, foi validada por Bagby, Parker e Taylor em 1994. Vale uma ressalva importante aqui: alexitimia como quadro clínico é uma coisa, e não é o que este texto está descrevendo, nem é possível concluir isso sobre alguém a partir de um texto. O que interessa aqui é o fenômeno mais amplo que a pesquisa sobre esse construto ajudou a nomear, que colocar um rótulo preciso no que se sente é uma habilidade, não um dado de nascença, e ambientes que recompensam performance e desencorajam qualquer sinal de fragilidade tendem a dar pouca prática nessa habilidade específica a quem se destaca neles. Não é que você não sinta. É que o vocabulário para nomear o que sente foi menos exercitado do que o vocabulário para entregar resultado.
O medo específico de quem tem carreira a proteger
Existe um medo concreto por trás da hesitação, e ele não é bobagem. É o medo de que buscar ajuda psicológica seja lido, por outros ou por você mesmo, como um sinal de que não aguenta o cargo que ocupa. Esse medo foi documentado com profundidade justamente numa categoria profissional onde a pressão para parecer sempre capaz é extrema, a medicina. Um consenso de especialistas publicado no JAMA em 2003 reuniu evidência de que médicos relutam em buscar tratamento para depressão por temerem consequências profissionais reais, do julgamento de colegas a processos de licenciamento que podem exigir declarar tratamento psiquiátrico. Vale o limite honesto aqui: esse achado é sobre medicina, uma profissão com barreiras regulatórias específicas que a maioria das carreiras de alta performance não tem, então não é correto transportar o número exato para qualquer cargo de liderança. O que se sustenta, e é o motivo de trazer o dado aqui, é o padrão por trás dele, quanto mais a identidade profissional depende de parecer infalível, maior o custo percebido de admitir que não está bem, mesmo quando a ajuda buscada é sigilosa e não tem relação nenhuma com a competência técnica de quem a busca. O quadro mais amplo de como a pressão degrada a própria capacidade de decidir bem está em Por que decisões importantes ficam piores quando você está sob pressão.
A diferença entre não precisar e nunca ter visto alguém como você pedir
Repare na diferença entre duas frases parecidas. Uma é: eu não preciso de terapia. A outra é: terapia nunca foi algo que eu vi alguém com o meu currículo fazer. A primeira é uma avaliação, possivelmente errada, mas uma avaliação. A segunda é uma ausência, um espaço que nunca foi preenchido, porque o modelo de profissional de alta performance que também cuida da própria saúde mental simplesmente circulou pouco. Boa parte do conteúdo dirigido a esse público fala em bem-estar corporativo, produtividade, mindfulness de aplicativo, e evita a palavra terapia, evita a palavra clínica, evita qualquer coisa que soe como cuidado de verdade em vez de otimização de desempenho. O efeito colateral é que quem mais precisaria ver esse modelo circulando é quem menos vê. Talvez você não tenha visto ninguém parecido com você sentar numa sala de atendimento e dizer que não está bem. Isso não significa que esse lugar não seja seu também.
Se alguma coisa até aqui apertou num lugar que você normalmente mantém sob controle, a proposta não é resolver isso hoje. É considerar a hipótese de que o padrão que trouxe você até aqui, dar conta de tudo por conta própria, pode não ser o mesmo padrão que sustenta o que vem depois. Buscar acompanhamento psicológico não é admitir fracasso, é reconhecer que existe um tipo de cuidado que a autossuficiência não substitui, sigiloso por definição e protegido pelo Código de Ética Profissional do psicólogo. Uma carta mais pessoal sobre esse mesmo obstáculo, escrita para quem nunca aprendeu que podia pedir ajuda, está em Homens negros e saúde mental. Se quiser entender como funciona um processo de admissão clínica com esse cuidado, existe uma porta pra isso.
E se o que você sente hoje já passou do que dá para segurar sozinho até a hora certa de buscar ajuda, o Centro de Valorização da Vida atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, e também por chat no site cvv.org.br. Em situação de emergência, o SAMU responde pelo 192.
Perguntas frequentes
Eu não estou mal o suficiente pra precisar de terapia, estou só cansado e meio irritado. Isso conta?
Conta, sim. Terapia não é um recurso reservado para quando a situação já virou crise, é um espaço de cuidado que também serve para nomear um cansaço que não passa e uma irritação que não é do seu jeito de ser. A pesquisa sobre por que as pessoas evitam buscar ajuda psicológica mostra algo importante aqui, o que mais prediz a decisão de não procurar não é a gravidade real do que se sente, é a vergonha antecipada de precisar, medida como autoestigma. Esperar merecer ajuda o suficiente é, na prática, deixar essa vergonha decidir por você. Se o cansaço e a irritação já duram semanas e não melhoram com descanso, vale conversar com um psicólogo sobre isso, mesmo sem uma palavra maior para nomear o que está sentindo.
Tenho medo de que buscar terapia seja visto como fraqueza ou prejudique minha carreira.
Esse medo é real e, em algumas profissões, foi documentado com evidência séria, um consenso de especialistas publicado no JAMA em 2003 mostrou médicos relutando em tratar depressão por temer consequências profissionais concretas. Vale a ressalva, esse achado é sobre medicina, categoria com barreiras regulatórias próprias que não existem do mesmo jeito na maioria das carreiras, então o número exato não se transporta direto para qualquer cargo. O que atravessa qualquer profissão é o princípio legal por trás do atendimento psicológico no Brasil, o sigilo profissional é uma obrigação ética do psicólogo prevista no Código de Ética Profissional, não uma cortesia. O conteúdo do que é dito em sessão não é repassado a empregador, plano de saúde corporativo ou qualquer terceiro sem autorização sua.
Buscar terapia quando minha vida já está bem não é querer demais, não é luxo desnecessário?
Não. Essa ideia parte de um pressuposto que vale a pena questionar, o de que cuidado psicológico só se justifica quando algo já quebrou. Ninguém pensa em academia ou check-up médico anual como luxo reservado a quem já está doente, eles são entendidos como manutenção. Terapia pode ocupar o mesmo lugar. Boa parte de quem só considera buscar ajuda quando a vida já está bem simplesmente nunca viu alguém com o mesmo tipo de currículo fazer isso antes, o modelo não circulou. Isso não é sobre merecimento, é sobre um espaço que ainda precisa ser normalizado, inclusive para quem, de fora, parece não precisar de nada.
Dicas de Leitura
- Brown, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é. Sextante, 2016 (tradução de Joel Macedo de Daring Greatly, 2012). A pesquisadora que mais estudou vergonha e vulnerabilidade no mundo de língua inglesa, escrevendo diretamente para quem construiu a própria identidade em torno de nunca parecer frágil. Lastro direto para o obstáculo central deste satélite.
- Solomon, Andrew. O Demônio do Meio-Dia: uma anatomia da depressão. Companhia das Letras (tradução de Myriam Campello de The Noonday Demon, 2001). Escrito por um autor premiado e bem-sucedido que atravessou depressão grave enquanto sua vida, vista de fora, parecia funcionar. Um dos relatos mais completos sobre a distância entre desempenho visível e sofrimento real.
- Maté, Gabor; Maté, Daniel. O Mito do Normal: trauma, saúde e cura em um mundo doente. Sextante, 2023 (tradução de Fernanda Abreu de The Myth of Normal, 2022). Discute como sociedades que recompensam produtividade e autocontrole ensinam a confundir funcionamento aparente com bem-estar real, exatamente o disfarce descrito na segunda seção deste satélite.
Referências (O Fundamento)
- Vogel, D. L., Wade, N. G., & Haake, S. (2006). Measuring the self-stigma associated with seeking psychological help. Journal of Counseling Psychology, 53(3), 325-337. DOI: 10.1037/0022-0167.53.3.325
- Center, C., Davis, M., Detre, T., et al. (2003). Confronting depression and suicide in physicians: a consensus statement. JAMA, 289(23), 3161-3166. DOI: 10.1001/jama.289.23.3161
- Bagby, R. M., Parker, J. D. A., & Taylor, G. J. (1994). The twenty-item Toronto Alexithymia Scale-I: item selection and cross-validation of the factor structure. Journal of Psychosomatic Research, 38(1), 23-32. DOI: 10.1016/0022-3999(94)90005-1
Gérson Neto. drgersonneto.com.
Dr. Gérson Neto · Psicólogo Clínico · CRP 03/22886