Homens negros e saúde mental. A armadura de dar conta de tudo, construída como sobrevivência, vira a própria muralha que impede pedir ajuda. E o homem altamente funcional que se identifica com essa armadura muitas vezes nunca parou para perceber que carrega um peso, porque nunca lhe ensinaram que pedir ajuda era uma possibilidade sua também.
uma carta para o homem que nunca aprendeu que podia pedir ajuda.
Ele é quem resolve. É quem a família liga quando o problema não tem solução óbvia, porque ele sempre acha uma. É quem segura a folha de pagamento, o casamento dos outros, a crise que ninguém viu chegar. É quem chega cansado e ainda pergunta se está todo mundo bem, sem que ninguém pense em fazer a mesma pergunta de volta pra ele. Ele não parece frágil, e é aí que mora o problema. Ele parece o oposto da fragilidade. Parece rocha. E a gente não costuma perguntar à rocha como ela está, porque a rocha, por definição, aguenta. O que quase ninguém percebe, nem ele, é que a rocha também racha. Só que ela racha por dentro, em silêncio, num lugar onde não há testemunha. Há uma boa chance de que esse homem seja você.
A armadura, onde a força foi aprendida
Convém começar com honestidade, porque essa força não é defeito nem farsa. Ela foi aprendida cedo, e foi aprendida por um bom motivo. Para muitos homens, e de um modo particularmente pesado para nós, homens negros neste país, a força nunca foi luxo, foi condição de sobrevivência. Aprende-se, desde menino, que hesitar é perigoso, que chorar é dar munição, que precisar é se expor. Aprende-se que o mundo perdoa muito pouco, e que a margem de erro de quem já nasce sob suspeita é estreita demais para incluir também a fraqueza. Então o menino faz o que qualquer criatura inteligente faria diante de um ambiente hostil, ele constrói uma armadura. Uma couraça de competência, de autossuficiência, de estar sempre um passo à frente da própria dor. E essa armadura funciona. Ela protege de verdade, por anos, às vezes por décadas. O erro seria desprezá-la como se fosse só machismo tolo, quando muitas vezes ela foi o que manteve a pessoa inteira e viva num terreno que não facilitou nada. O problema não está em ter forjado a armadura. O problema é que ninguém avisou que ela não tem botão de desligar.
O custo, o que a couraça cobra por dentro
Porque toda armadura tem um peso, e o peso da armadura emocional é sutil, ele não aparece na balança. Ele aparece na distância. O homem que aprendeu a nunca precisar vai, aos poucos, perdendo o próprio vocabulário da necessidade. Ele deixa de saber nomear o que sente, não porque não sinta, mas porque nunca lhe deram permissão nem prática para dar nome àquilo. A tristeza vira cansaço, que é mais aceitável. A angústia vira irritação, que é mais masculina. O medo vira controle, o desamparo vira trabalho, e assim a dor toda é traduzida para dialetos que passam despercebidos, inclusive por ele mesmo. Isso tem até nome na psicologia, essa dificuldade de acessar e nomear o próprio estado interno, e o mais importante é entender que ela raramente é um traço de nascença. É quase sempre um analfabetismo ensinado. A pessoa foi treinada, gesto após gesto, olhar após olhar, a desligar o instrumento que mede a própria alma. E quem não mede, não percebe quando o nível chegou perto demais da borda. Não é que o homem forte não sofra. É que ele foi educado para não ter como saber que está sofrendo até que o sofrimento já tenha tomado boa parte do terreno.
O número, quando a intimidade vira estatística
Há um jeito frio de dizer o que estou dizendo, e ele aparece nos dados de saúde. Quando o Ministério da Saúde olhou para a mortalidade por suicídio entre adolescentes e jovens de dez a vinte e nove anos, encontrou, em 2016, um risco 45% maior entre os que se declaram pretos e pardos do que entre os brancos, num movimento que crescia enquanto o dos jovens brancos permanecia estável. Não é acaso e não é destino. É a tradução, em estatística, de tudo o que descrevi até aqui, uma população inteira ensinada a carregar sem nunca aprender a entregar, colocada num mundo que oferece razões de sobra para adoecer e poucas portas seguras para pedir socorro. Não trago esse dado para assustar ninguém, e faço questão de dizer que ele não é uma sentença sobre quem lê. O número fala de jovens, e de um recorte específico de dor, e seria desonesto transformá-lo no seu retrato se você é um homem adulto que dá conta de tudo. Mas ele diz algo que atravessa também a sua cena, porque a armadura que aparece, no limite mais duro, naquele dado, é a mesma que se aprende cedo e não se desliga depois. A estatística fala dos que não chegaram. E a mesma couraça que os cercou desde meninos é a que aparece, no cotidiano do adulto, no executivo que não dorme e chama isso de disciplina, no pai que se afasta e chama isso de dar espaço, no homem competente e sozinho que chama a própria solidão de independência. O dado é o extremo mais duro de uma armadura cultural que começa na infância e não larga a pessoa quando ela cresce, e muita gente altamente funcional está em algum ponto dessa mesma linha, sem saber, porque a couraça esconde tão bem que esconde até de quem a veste.
O ponto cego, não perceber que se carrega peso
E aqui está a coisa mais difícil de enxergar, justamente porque ela é o ponto cego. O homem que dá conta de tudo raramente pensa que precisa de ajuda, e não por arrogância. É que a competência dele é real. Ele resolve mesmo. Sustenta mesmo. Atravessa mesmo. E como resolve tudo o que aparece, conclui, de forma quase lógica, que também vai resolver isto, seja lá o que isto for, esse aperto no peito de domingo à noite, essa vontade estranha de sumir por uns dias, essa sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa. Ele nunca parou para perceber que carrega um peso porque carregar peso é a única coisa que ele sabe fazer, e a gente não estranha o ar que respira. Pedir ajuda, para esse homem, não é algo que ele recusa por orgulho. É algo que sequer entra no cardápio de opções, porque ninguém nunca lhe apresentou aquilo como sendo dele também. Ele sabe que existe terapia, do mesmo jeito que sabe que existe balé, como uma coisa que é para outras pessoas. E aí está a distinção mais importante que eu queria trazer nesta carta, a diferença enorme, e quase sempre invisível, entre não precisar de ajuda e nunca ter aprendido que podia pedir.
A porta, a diferença entre não precisar e não saber que pode
Porque são coisas radicalmente diferentes, e confundir uma com a outra cobra um preço alto demais. Não precisar de ajuda é um estado. Nunca ter aprendido que podia pedir é uma ausência, uma janela que nunca foi aberta na parede, de modo que a pessoa vive a vida inteira num quarto e jura que ali não cabe porta nenhuma. O homem que nunca pediu ajuda não é, na esmagadora maioria das vezes, um homem que não precisa. É um homem que não sabe que pode. Que nunca viu outro homem parecido com ele sentar e dizer estou mal sem que o teto desabasse. Que associa pedir a perder, quando pedir, na verdade, é a coisa mais antiga e mais humana que existe, é o que o filhote faz, é o que mantém a espécie viva. A força de verdade, a que se vê nos homens que finalmente cruzam a porta de um acompanhamento, não é a de quem nunca precisou. É a de quem precisava havia muito tempo, aprendeu tarde que podia, e teve a coragem descomunal de fazer uma coisa para a qual não foi treinado. Descobrir que a porta existe já é metade do caminho. A outra metade é a suspeita, que eu queria plantar em você agora, de que talvez ela tenha estado aí o tempo todo, esperando, e que o direito de atravessá-la, esse, sempre foi seu também.
Se alguma coisa nesta carta apertou num lugar que você costuma manter trancado, eu não vou te pedir para escancarar esse lugar hoje, seria leviano e não é assim que funciona. Vou te pedir só que considere uma hipótese, a de que o peso que você chama de normal talvez seja peso demais para uma pessoa só, e que o fato de você dar conta não significa que você tenha que dar conta sozinho. A força que te trouxe até aqui foi verdadeira e merece respeito. Mas ela te trouxe só até aqui. O que vem depois, esse terreno onde a gente aprende que descansar da armadura não é fraqueza e sim uma das coisas mais corajosas que um homem forte pode fazer, esse terreno não se atravessa de couraça. E não precisa ser atravessado sozinho. Existe muita gente cujo ofício inteiro é caminhar ao lado de quem enfim decidiu descobrir que a porta sempre esteve ali. Procurar essa companhia, quando chegar a hora, não é entregar os pontos. É começar a descansar de um peso que nunca foi só seu para carregar.
E se a leitura de hoje encontrou você num momento em que o peso está grande demais para esperar a hora certa, existe uma porta que abre agora, a qualquer dia e a qualquer horário. O Centro de Valorização da Vida atende de graça e em sigilo pelo telefone 188, e também por chat no site cvv.org.br. Em situação de emergência, o SAMU responde pelo 192, e os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, acolhem sem necessidade de encaminhamento. Falar com alguém quando o chão parece sumir não é fraqueza nenhuma. É a primeira coisa que a força de verdade faz quando finalmente aprende que pode.
Dicas de Leitura
- Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social, de Neusa Santos Souza (Zahar). Escrito por uma psiquiatra e psicanalista baiana, é o texto fundador para entender o custo psíquico de existir sob o peso de um olhar que exige o tempo todo prova de valor. Leitura que ilumina, por dentro, por que a armadura do homem negro é ao mesmo tempo sobrevivência e ferida, e por que falar disso é um ato de cuidado, não de fraqueza.
- Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba (Cobogó). Um estudo profundo sobre o que o racismo cotidiano faz com a subjetividade de quem o atravessa todos os dias, e sobre o silêncio como sintoma e como sobrevivência. Companhia densa para pensar por que nomear a própria dor, para quem foi ensinado a engoli-la, é um gesto tão difícil quanto necessário.
- A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor, de bell hooks (Elefante). Talvez o livro mais direto ao coração desta edição. hooks argumenta, com uma ternura desarmante, que os homens não são inimigos da própria vida emocional por natureza, foram treinados para se afastar dela, e que reaprender a sentir e a pedir é possível em qualquer idade. Leitura que devolve esperança sem romantizar o tamanho do trabalho.
Referências (O Fundamento)
- Ministério da Saúde. Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros: 2012 a 2016. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Documento que aponta, com base no Sistema de Informação sobre Mortalidade do SUS, risco 45% maior de morte por suicídio entre adolescentes e jovens pretos e pardos de dez a vinte e nove anos, em comparação com brancos da mesma faixa, no ano de 2016, e tendência de crescimento entre 2012 e 2016.
- Wong, Y. J.; Ho, M. R.; Wang, S. Y.; Miller, I. S. K. Meta-analyses of the relationship between conformity to masculine norms and mental health-related outcomes. Journal of Counseling Psychology, 2017. Meta-análise de setenta e oito amostras, mais de dezenove mil participantes, associando a conformidade a normas masculinas tradicionais a piores desfechos de saúde mental e a atitudes menos favoráveis à busca por ajuda psicológica.
- Literatura consolidada sobre comportamento de busca de ajuda e saúde mental do homem, que relaciona normas rígidas de masculinidade, o ideal de força, virilidade e provimento, a menor procura por cuidado e ao mascaramento do sofrimento por sintomas socialmente mais aceitáveis, como irritabilidade e excesso de trabalho.
Gérson Neto. A Trama Oculta.
Dr. Gérson Neto · A Trama Oculta