Altas Habilidades não são superpoderes
Quando se fala em altas habilidades (AH), ou superdotação, muita gente logo pensa em pessoas geniais, prodígios resolvendo equações impossíveis ou escrevendo best-sellers antes dos 12 anos. A ideia romântica do “gênio solitário” perambula pela imaginação coletiva, mas a realidade é bem diferente. Ser uma pessoa superdotada não significa ter uma vida mais fácil – muitas vezes, significa justamente o oposto.
A falta de compreensão sobre as dificuldades dessas pessoas pode transformar um presente em um fardo. Neste artigo, vamos explorar o lado que quase ninguém fala: os desafios silenciosos, mas profundos, de quem vive com altas habilidades.
O mito do Super-Humano: quando inteligência vira cobrança
Pessoas com AH costumam ser vistas como sortudas. Afinal, quem não quer aprender rápido, conectar ideias com facilidade e ter um pensamento afiado? Mas o que poucos percebem é que a inteligência acima da média não vem com um manual de instruções. Pelo contrário, muitas vezes, ela vem acompanhada de pressão e isolamento.
Estudos indicam que pessoas com AH têm maior propensão a transtornos como ansiedade e depressão (Škrinjarić & Jurčić, 2020). Isso ocorre porque a sociedade tende a esperar que eles performem em um padrão inalcançável, como se fossem máquinas de produtividade infinita.
E não para por aí. Muitos adultos com altas habilidades relatam um fenômeno curioso: uma autocobrança brutal. Como crescem sendo elogiados por sua inteligência, acabam desenvolvendo um medo paralisante de falhar. Essa exigência autoimposta pode ser tão intensa que, paradoxalmente, leva à procrastinação e ao sentimento de insuficiência.
O cansaço mental de um cérebro hiperativo
Imagine que sua mente é um carro de Fórmula 1, acelerando a 300 km/h sem um pit stop. Parece emocionante? Pois experimente pilotá-lo sem freios.

O pensamento acelerado é uma característica comum entre pessoas com AH. Elas processam informações de maneira rápida e multifacetada, conectando conceitos de formas inusitadas (Öztürk & Duy, 2021). Isso pode ser uma vantagem em ambientes de inovação, mas também pode se tornar um problema quando a mente não consegue desligar.
A exaustão mental resultante pode levar a problemas como insônia, hiperfoco descontrolado e dificuldades emocionais. Muitos relatam a sensação de estar “sempre ligado”, incapazes de simplesmente relaxar e curtir um momento sem que a mente os arraste para reflexões intensas sobre a existência humana ou sobre como otimizar a fila do supermercado.
Isolamento: o preço de pensar diferente
O senso comum nos diz que “inteligência atrai”, mas a realidade é que muitas pessoas com AH enfrentam dificuldades em conexões sociais. Quando crianças, podem ter interesses muito distintos dos colegas da mesma idade, o que leva à solidão. Quando adultos, a complexidade de seus pensamentos pode gerar distância emocional em relações pessoais e profissionais.
O psicólogo James T. Webb (2013), um dos maiores especialistas em superdotação, alerta que indivíduos com AH têm maior propensão a sentirem-se deslocados ou não compreendidos. Muitas vezes, acabam criando um mundo interno rico, mas solitário.
Isso também se reflete no mercado de trabalho. Apesar da inteligência aguçada, as pessoas superdotadas podem encontrar dificuldades em ambientes corporativos que favorecem a conformidade em detrimento da criatividade e do pensamento crítico.
Hipersensibilidade: quando sentir demais cansa
Outro aspecto pouco discutido é a ligação entre altas habilidades e hipersensibilidade emocional. Muitas pessoas com AH apresentam intensas reações emocionais, sejam elas positivas ou negativas. Pequenas críticas podem ser devastadoras, e situações injustas podem gerar uma indignação profunda.
Kazimierz Dabrowski (1972), psiquiatra polonês, descreveu esse fenômeno como “superexcitabilidades”, ou seja, uma resposta amplificada aos estímulos internos e externos. Isso significa que uma pessoa superdotada pode se emocionar profundamente com uma música, mas também pode sofrer mais com um problema no trabalho que outras pessoas simplesmente ignorariam.
Como lidar com os desafios das altas habilidades?
Se você se identificou com alguns desses desafios, a primeira coisa é: respire fundo. Você não está só. Embora o sistema nem sempre esteja preparado para atender pessoas com altas habilidades, existem estratégias eficazes para melhorar a qualidade de vida:
1. Autoconhecimento: compreender suas forças e desafios é essencial para desenvolver um estilo de vida mais equilibrado.
2. Rede de apoio: buscar grupos e comunidades que compartilhem experiências semelhantes pode ajudar a reduzir o isolamento.
3. Terapia especializada: psicólogos que compreendem o universo das altas habilidades podem auxiliar no gerenciamento emocional.
4. Gerenciamento de tempo e energia: encontrar formas de desacelerar e criar espaços para o descanso mental é crucial.
Nem maldição, nem bênção absoluta
Altas habilidades não são superpoderes. São um traço cognitivo que pode trazer tanto benefícios quanto desafios. O maior erro da sociedade é romantizar a inteligência e ignorar o impacto que ela pode ter na saúde mental e emocional.
O que realmente importa é que as pessoas com AH tenham acesso a informação e suporte adequados para viverem com mais equilíbrio. Se você é uma delas ou conhece alguém que se encaixa nesse perfil, compartilhe esse texto. Entender e aceitar a própria mente é o primeiro passo para transformar o fardo em algo mais leve e positivo.
Referências
– DABROWSKI, Kazimierz. Positive Disintegration Theory. London: G. Allen & Unwin, 1972.