Todo mundo conta comigo e eu não tenho com quem contar
Ser a pessoa com quem todo mundo conta pode virar um lugar de onde é difícil sair. Quando quase ninguém pergunta como você está, o cansaço pode ficar sem ter onde ser dito.
Em quase todo grupo existe alguém para quem as perguntas convergem. Na equipe, é quem sabe onde está cada coisa. Na família, é quem resolve o documento, o conserto, a conversa difícil. No negócio, é quem segura as pontas quando o mês aperta. Ninguém precisou dar nome a essa função. Ela foi se instalando, um pedido de cada vez, até que ninguém lembrasse mais como era antes.
Essa pessoa costuma estar dando conta. Os prazos fecham, a casa funciona, ninguém fica sem resposta. Visto de fora, está tudo em ordem. Visto de dentro, às vezes o que existe é outra frase: estou dando conta, mas estou no limite.
E junto dela vem uma segunda, mais difícil de dizer em voz alta: parece que, se eu parar, alguma coisa vai escapar.
A partir daí, o cansaço pode deixar de ser só cansaço. Descansar começa a parecer descuido. Pedir ajuda começa a parecer abrir uma brecha. Talvez por isso muita gente nesse lugar continue funcionando muito depois do ponto em que outra pessoa já teria parado.
Existe uma assimetria que quase ninguém vê. As pessoas em volta perguntam o que fazer, onde está, se dá para resolver até sexta. Pode ser bem menos comum alguém perguntar como a pessoa está. E, quando alguém pergunta, a resposta que sai primeiro costuma ser “tudo certo”, porque a pergunta chegou num lugar onde não havia espaço preparado para ela.
Às vezes nem falta gente por perto. A pessoa tem com quem conversar. O que falta é alguém a quem entregar o peso sem que isso vire mais uma coisa para administrar: a preocupação de quem ouve, o medo de assustar, a sensação de que, ao falar, vai ser preciso cuidar também da reação do outro. Então o peso fica onde está, e o dia segue.
Para quem ocupa esse lugar há muito tempo, a própria identidade pode ter se organizado em torno dele. Ser confiável passou a fazer parte de quem se é, e deixou de ser apenas algo que se faz. Por isso a ideia de precisar de alguém pode soar como ameaça a uma imagem que levou anos para ser construída.
Muitas vezes a responsabilidade é real: as pessoas dependem mesmo de quem ocupa esse lugar, e parar de uma vez teria consequências. Ainda assim, quando todo o peso passa por um único lugar, o conjunto inteiro pode ficar frágil, e essa fragilidade costuma ser paga em silêncio por quem segura.
Alguns sinais podem indicar que o custo está ficando alto. O sono que já não recupera. A irritação com pedidos pequenos. A sensação de cumprir tudo no automático. A dificuldade de lembrar a última vez em que alguém cuidou da pessoa sem que precisasse pedir. Nenhum desses sinais, isolado, diz muita coisa. Juntos e persistentes, merecem atenção.
Às vezes aparece algo além do cansaço: a ideia de que seria melhor desaparecer, de que ninguém sentiria falta, ou pensamentos de tirar a própria vida. Aí a questão já não é de rotina nem de organização, e buscar apoio vem antes de qualquer outra coisa. Esses pensamentos merecem cuidado e não precisam ser atravessados sem ninguém. O CVV atende pelo telefone 188, de graça, 24 horas por dia, e também tem atendimento por chat no site cvv.org.br. Se houver risco imediato à vida, o SAMU atende pelo 192.
Quando o cansaço se instala por meses, quando parar passou a gerar mais angústia do que continuar, ou quando a pessoa percebe que não tem onde falar de si sem virar motivo de preocupação, conversar com um profissional de psicologia pode ajudar. Pode ser um dos poucos lugares em que o peso chega sem que seja preciso poupar quem escuta. Qual formato de cuidado faz sentido é algo que uma primeira conversa com um profissional pode ajudar a definir.
Ser a pessoa com quem todo mundo conta muitas vezes é o resultado de anos de cuidado real com os outros.
O que costuma ficar sem resposta é a pergunta inversa.
Quando quem está no limite é você, com quem você conta?
Dr. Gérson Neto · drgersonneto.com