Neuromitos · Multitarefa
Multitarefa: seu cérebro realmente faz duas coisas ao mesmo tempo, ou só alterna rápido?
A sensação de dar conta de tudo ao mesmo tempo é real, mas o que o cérebro faz por trás dela quase nunca é processamento simultâneo. É alternância rápida entre tarefas, com um custo medido em frações de segundo que se acumula ao longo do dia.
Três abas abertas, o e-mail piscando, uma mensagem chegando no celular enquanto uma reunião roda ao fundo. Nesse momento, a sensação é de estar com tudo sob controle, cérebro ligado, rendendo o dobro. A pergunta que a neurociência cognitiva já respondeu com bastante clareza não é se essa sensação existe, existe, é o que está acontecendo de fato enquanto ela acontece. E a resposta, na maior parte dos casos, desmonta a própria palavra multitarefa: o que passa por processamento simultâneo é, quase sempre, alternância rápida entre uma tarefa e outra, uma de cada vez, com um custo que cada troca cobra e que ninguém sente cobrar em tempo real.
O que "fazer duas coisas ao mesmo tempo" realmente exige do cérebro
Quando duas tarefas exigem atenção ativa e decisão, o cérebro não processa as duas em paralelo, ele alterna entre elas. A pesquisa que melhor descreve esse mecanismo é de Rubinstein, Meyer e Evans, publicada em 2001 na Journal of Experimental Psychology, cada troca de tarefa passa por dois estágios cognitivos distintos. O primeiro é a mudança de meta, deixar de perseguir o objetivo da tarefa anterior e assumir o objetivo da nova. O segundo é a ativação de regra, desligar o conjunto de regras mentais que orientava a tarefa anterior e ativar o conjunto que orienta a nova. Os dois estágios acontecem de forma automática, fora da consciência, e é justamente por isso que a troca parece instantânea e gratuita por dentro, mesmo não sendo.
Uma revisão de referência de Stephen Monsell, publicada em 2003 na Trends in Cognitive Sciences, deu nome a essa cobrança, custo de troca, e mostrou algo que contraria a intuição de que treino resolve o problema, parte desse custo é residual, continua presente mesmo quando a pessoa sabe exatamente quando a troca vai acontecer e se prepara pra ela com antecedência. Preparação reduz o custo, não zera.
O relógio não mente, mesmo quando a sensação mente
O problema não é que uma troca isolada custe muito. Custa pouco, frações de segundo. O problema é o volume. Segundo o psicólogo David Meyer, autor de parte da pesquisa original sobre o tema, os pequenos bloqueios mentais criados por trocar de tarefa repetidamente podem custar até 40% do tempo produtivo de alguém, quando o dia inteiro é feito de interrupção sobre interrupção. E o próprio Rubinstein, revisando os dados de complexidade, encontrou um padrão que faz o problema piorar exatamente onde mais dói, o custo de troca cresce junto com a complexidade da tarefa, e é maior ainda quando a tarefa pra qual a pessoa está trocando é pouco familiar. Trocar entre duas tarefas simples e conhecidas custa pouco. Trocar pra uma tarefa nova, ambígua ou que exige análise cuidadosa, exatamente o tipo de tarefa que mais importa no trabalho, é onde o relógio mais discorda da sensação de produtividade.
A prova mais visceral: dirigir enquanto fala ao telefone
Se existe um cenário onde esse custo deixa de ser abstrato, é no trânsito. Um estudo de Strayer e Johnston, publicado em 2001 na Psychological Science, comparou pessoas dirigindo em simulador enquanto ouviam rádio, ouviam audiolivro ou conversavam ao telefone. Ouvir rádio ou audiolivro não prejudicou a performance. Conversar ao telefone, sim, e não foi diferença pequena, o risco de não perceber um sinal de trânsito simulado dobrou, e o tempo de reação aos sinais que a pessoa conseguia perceber ficou mais lento. O detalhe que derruba a desculpa mais comum, viva-voz ou aparelho na mão fizeram a mesma diferença, nenhuma. A atenção ocupada sustentando uma conversa consome o mesmo tipo de recurso cognitivo que dirigir exige, e é isso, não a mão no aparelho, que explica o resultado.
O paradoxo que a prática deveria resolver, e não resolve
A intuição mais comum é que quem multitarefa bastante no dia a dia deveria ficar bom nisso, prática leva a domínio. A pesquisa encontrou o oposto. Ophir, Nass e Wagner, num estudo de 2009 na PNAS, compararam pessoas que relatavam usar várias mídias ao mesmo tempo com frequência contra pessoas que raramente faziam isso, em tarefas de laboratório que exigiam ignorar distração e trocar de tarefa com eficiência. Quem mais multitarefa no cotidiano performou pior nas duas coisas, não melhor, mais suscetível a se distrair com informação irrelevante e mais lento pra alternar entre tarefas de forma controlada.
O achado fica ainda mais desconfortável quando cruzado com autopercepção. Sanbonmatsu, Strayer, Medeiros-Ward e Watson, em 2013 na PLOS ONE, mediram a habilidade real de multitarefa de um grupo grande de pessoas e comparou com o quanto cada uma acreditava ser boa nisso. A correlação foi negativa, quanto mais a pessoa multitarefa no dia a dia e quanto mais confia na própria habilidade, pior tende a ser o desempenho real medido em laboratório, e o grupo que mais multitarefa também pontuou mais alto em impulsividade e busca por sensação nova. Uma revisão de síntese mais recente, de Koch e colegas em 2018 na Psychological Bulletin, cruzando décadas de pesquisa em duas tradições metodológicas diferentes, dual-task e troca de tarefa, chega ao mesmo padrão por caminhos distintos, reforçando que não é ruído de um único laboratório.
A exceção real, e por que ela não é uma licença
Nem tudo aqui é debunking fechado, e seria desonesto fingir que é. Watson e Strayer, no mesmo grupo de pesquisa de Utah, publicaram em 2010 um achado genuíno de exceção, os chamados supertaskers. Numa amostra testada num simulador de direção com uma tarefa cognitiva exigente rodando ao mesmo tempo, cerca de 2,5% das pessoas não mostrou nenhuma perda de desempenho mensurável em nenhuma das duas tarefas, dirigindo e resolvendo o problema cognitivo como se estivesse fazendo só uma coisa por vez. É um achado real, replicado, não um outlier isolado descartável.
O problema é o que normalmente acontece com uma exceção de 2,5%, todo mundo se imagina dentro dela. E é exatamente aí que o achado de Sanbonmatsu e colegas citado acima vira contrapeso necessário, acreditar que se está no grupo dos supertaskers não é evidência de estar, a mesma pesquisa mostrou que quem mais confia na própria habilidade de multitarefa tende a performar pior, não melhor. Sem um teste formal de laboratório, não existe forma confiável de saber se alguém está entre os 2,5% ou entre os 97,5%, e a aposta estatística mais responsável é presumir a segunda opção.
O que não é mito: tarefas automatizadas rodando em paralelo
A honestidade aqui exige nomear o limite do próprio argumento. Nada disso significa que o cérebro é incapaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo em qualquer circunstância. Caminhar enquanto conversa, dobrar roupa enquanto ouve um podcast, essas combinações funcionam bem porque uma das duas atividades está automatizada, não exige controle executivo ativo, a mesma classe de processo que caminhar em terreno conhecido dispensa quase por completo. O custo de troca descrito neste texto aparece quando as duas tarefas competem pelo mesmo recurso de atenção controlada, planejamento, decisão, análise, não quando uma delas roda no piloto automático. O mito nunca foi "o cérebro faz só uma coisa por vez, literalmente", o mito é achar que duas tarefas que exigem atenção ativa cabem juntas sem custo.
O que fica, na prática
O que essas descobertas pedem é reconhecimento, não força de vontade ou disciplina moral: que a sensação de estar rendendo mais trocando de tarefa depressa é, com bastante frequência, o oposto exato do que o relógio mostraria se alguém cronometrasse. Agrupar tarefas parecidas, proteger blocos sem interrupção pra decisão ou análise que realmente importam, e tratar dar uma olhada rápida no celular durante uma call decisiva como o mesmo tipo de custo cognitivo de mexer no celular dirigindo, mesmo sem o risco físico, são ajustes pequenos com lastro real, não convicção de produtividade.
Este satélite integra a mesma série que já testou outras crenças populares sobre o cérebro vendidas como neurociência em curso e palestra corporativa. A pergunta que abre o pilar deste cluster, Você só usa 10% do cérebro?, segue a mesma régua aplicada aqui, checar a origem da alegação e o que a evidência real mostra, antes de aceitar ou rejeitar qualquer versão popular de neurociência.
Perguntas frequentes
Ouvir podcast ou música enquanto faço uma tarefa manual repetitiva também sofre esse custo de troca?
Geralmente não, pela mesma razão explicada acima. O custo de troca aparece quando as duas tarefas competem pelo mesmo recurso de atenção controlada. Quando uma das atividades está automatizada, dobrar roupa, caminhar em terreno conhecido, lavar louça, o cérebro não precisa repetir os dois estágios de mudança de meta e ativação de regra da mesma forma que precisa entre duas tarefas que exigem decisão ativa. O risco cresce quando as duas atividades pedem atenção controlada ao mesmo tempo, não quando uma delas roda quase sozinha.
Existe gente que realmente multitarefa bem, sem perder desempenho?
Sim, uma fração pequena e real. Cerca de 2,5% de uma amostra testada em laboratório não mostrou nenhuma perda de desempenho numa tarefa dupla de dirigir e resolver um problema cognitivo exigente ao mesmo tempo, os chamados supertaskers. Mas a mesma linha de pesquisa encontrou um contraponto importante, acreditar que se está nesse grupo não é evidência de pertencer a ele. Quem mais multitarefa no dia a dia e mais confia na própria habilidade tende a performar pior nos testes reais, não melhor, então a autoavaliação não serve como prova.
Trocar de aba entre e-mail e planilha custa o mesmo que trocar entre dirigir e conversar no telefone?
Não na mesma magnitude, mas o mecanismo por trás é do mesmo tipo, e cresce com a complexidade e a falta de familiaridade de cada tarefa. Trocar entre duas tarefas simples e já dominadas custa pouco. Trocar pra uma tarefa nova, ambígua ou que exige análise cuidadosa custa mais, porque o segundo estágio da troca, ativar as regras mentais da nova tarefa, demora mais quando essas regras não estão bem consolidadas. É exatamente esse tipo de troca, entre tarefas complexas e pouco automatizadas, que ocupa a maior parte de um dia de trabalho comum.
Dicas de Leitura
- Newport, Cal. Trabalho Focado: Como Ter Sucesso em um Mundo Distraído. São Paulo: Alta Books, 2018 (tradução de Marina Boscato). Título original Deep Work. Antídoto prático ao mesmo custo de troca descrito neste satélite, blocos protegidos de atenção controlada em vez de alternância constante entre tarefas.
- Levitin, Daniel J. A Mente Organizada: Como Pensar com Clareza na Era da Sobrecarga de Informação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015 (tradução de Roberto Grey). Título original The Organized Mind. Escrito por um neurocientista, dedica capítulo inteiro a explicar por que a troca de atenção tem custo cognitivo real, com a mesma base de pesquisa citada neste satélite.
- Hari, Johann. Foco Roubado: Os Ladrões de Atenção da Vida Moderna. São Paulo: Vestígio, 2023 (tradução de Luis Reyes Gil). Título original Stolen Focus. Investigação jornalística sobre o colapso da atenção sustentada na vida contemporânea, cobre o mito da multitarefa como um dos doze fatores que a obra investiga.
Referências (O Fundamento)
- Rubinstein, J. S., Meyer, D. E., & Evans, J. E. (2001). Executive control of cognitive processes in task switching. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 27(4), 763-797. DOI: 10.1037/0096-1523.27.4.763
- Monsell, S. (2003). Task switching. Trends in Cognitive Sciences, 7(3), 134-140. DOI: 10.1016/S1364-6613(03)00028-7
- Strayer, D. L., & Johnston, W. A. (2001). Driven to distraction: Dual-task studies of simulated driving and conversing on a cellular telephone. Psychological Science, 12(6), 462-466. DOI: 10.1111/1467-9280.00386
- Ophir, E., Nass, C., & Wagner, A. D. (2009). Cognitive control in media multitaskers. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(37), 15583-15587. DOI: 10.1073/pnas.0903620106
- Sanbonmatsu, D. M., Strayer, D. L., Medeiros-Ward, N., & Watson, J. M. (2013). Who multi-tasks and why? Multi-tasking ability, perceived multi-tasking ability, impulsivity, and sensation seeking. PLOS ONE, 8(1), e54402. DOI: 10.1371/journal.pone.0054402
- Watson, J. M., & Strayer, D. L. (2010). Supertaskers: Profiles in extraordinary multitasking ability. Psychonomic Bulletin & Review, 17(4), 479-485. DOI: 10.3758/PBR.17.4.479
- Koch, I., Poljac, E., Müller, H., & Kiesel, A. (2018). Cognitive structure, flexibility, and plasticity in human multitasking: An integrative review of dual-task and task-switching research. Psychological Bulletin, 144(6), 557-583. DOI: 10.1037/bul0000144
- American Psychological Association (2006, 20 de março). Multitasking: Switching costs [artigo de divulgação, atribuído a David Meyer]. apa.org
Gérson Neto. drgersonneto.com.
Dr. Gérson Neto · Psicólogo Clínico · CRP 03/22886