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Ansiedade e Liderança 04.08.2026 Artigo companheiro

Aprofundamento · A mente que não desliga

Ansiedade em executivos: por que cargo alto não protege de crise silenciosa

Quanto mais alto o cargo, mais convincente fica a máscara, e é exatamente isso que engana. A ansiedade não diminui com a subida na hierarquia, muda de forma, fica mais bem escondida, inclusive de quem a sente.

Existem duas versões da mesma pessoa na sala de reunião de quem ocupa um cargo alto. Uma conduz a pauta em ordem, responde perguntas difíceis sem titubear, decide sob prazo curto e sai da sala com a mesma voz firme de quando entrou. A outra, minutos antes ou logo depois, revisa mentalmente cada frase que disse, antecipa o que pode dar errado amanhã e sente o peito apertado sem conseguir nomear exatamente por quê. A maioria das pessoas ao redor só vê a primeira. Quem convive com esse padrão de perto às vezes nem sabe nomear a segunda, porque ela raramente aparece fora de hora. O mecanismo por trás dessa distância é específico: quanto mais alto o cargo, mais convincente fica a versão que todo mundo vê, e essa mesma competência em parecer bem pode ser exatamente o que atrasa o reconhecimento de que algo pede atenção.

O cargo não reduz a ansiedade, muda o que ela precisa fazer para aparecer

A crença comum é que responsabilidade alta e ansiedade alta não deveriam coexistir por muito tempo, quem não dá conta cairia, quem se sustenta no cargo é porque está bem. Essa lógica confunde duas coisas diferentes: a frequência de um estado interno e a permissão social para expressá-lo. Todo ambiente de trabalho opera com regras de exibição, expectativas implícitas sobre quais emoções podem ser mostradas, quando e por quem [Grandey, 2000]. Quanto mais alto o cargo, mais rígida tende a ser essa regra: liderar sob pressão, no imaginário comum de qualquer organização, inclui parecer no controle mesmo quando não se está. A ansiedade não desaparece com a subida na hierarquia: ela passa a competir com uma exigência de desempenho emocional que cargos mais júnior não carregam na mesma intensidade, e competir com essa exigência tem um preço, que geralmente não aparece na frente de ninguém.

Manter a calma como parte do trabalho tem custo, mesmo quando funciona

Regular a própria expressão para atender ao que o cargo espera, sorrir estável numa reunião tensa, falar num tom firme quando o resultado do trimestre não veio, é o que a literatura sobre trabalho emocional chama de atuação de superfície: ajustar o comportamento visível sem que o estado interno mude junto [Grandey, 2000]. É diferente de mentir. É mais parecido com um músculo que se exercita sozinho todo dia, sustentando uma performance de estabilidade que o cargo cobra, sem que ninguém tenha pedido isso explicitamente por escrito. Pesquisa sobre o que chama de fachadas de conformidade em ambientes organizacionais descreve como manter, de forma consistente, uma versão pública que não corresponde ao que a pessoa sente por dentro tem custo psicológico próprio, distinto do próprio estresse da função [Hewlin, 2003]. Cargos de liderança pedem essa fachada com mais frequência e para uma plateia maior do que cargos operacionais pedem, o que ajuda a explicar por que a ansiedade em quem lidera tende a ficar mais bem disfarçada: mais motivo para se esconder, não menos frequência real.

Quem monitora a própria expressão o dia inteiro também presta menos atenção ao que sente por dentro

Existe uma diferença bem documentada entre pessoas que ajustam o próprio comportamento principalmente a partir de pistas sociais e situacionais, e pessoas cujo comportamento segue mais de perto o próprio estado interno [Snyder, 1974]. Cargos de liderança tendem a exigir e a recompensar o primeiro padrão: ler a sala, calibrar o tom para quem está ouvindo, ajustar a postura ao contexto da reunião. É uma habilidade real e útil. O efeito colateral é que, quanto mais a atenção fica voltada para calibrar a própria expressão de acordo com o que a situação pede, menos espaço sobra para notar, no momento, o que está acontecendo por dentro. A ansiedade não fica escondida de propósito: a atenção de quem lidera está treinada, todo dia, para monitorar o efeito que a própria expressão causa nos outros, não para monitorar o próprio estado. Isso torna mais fácil um padrão de ansiedade se instalar sem ser percebido, nem por quem o sente.

Sentir que não merece estar ali é mais comum, entre quem chegou lá, do que se costuma admitir

Um estudo com 242 pessoas ocupando cargos de liderança em setores diferentes validou, especificamente nessa população, o fenômeno do impostor, a sensação persistente de que o próprio sucesso é fruto de sorte ou circunstância, não de competência real, associada a níveis mais altos de ansiedade, autoavaliação mais negativa e perfeccionismo [Rohrmann, Bechtoldt & Leonhardt, 2016]. Uma revisão sistemática publicada em 2024, reunindo quase cinco décadas de pesquisa sobre esse fenômeno em contexto de trabalho, confirma que a associação entre o padrão de pensamento impostor e a ansiedade se sustenta de forma consistente entre diferentes níveis de senioridade, não só entre quem está começando a carreira [Gullifor et al., 2024]. Isso desmonta uma suposição comum, a de que quem já chegou ao topo já resolveu essa insegurança pelo caminho. O que os dados sugerem é o oposto: o cargo alto não elimina a sensação de fraude, só reduz o número de pessoas para quem seria seguro admitir que ela existe.

O motivo real para não pedir ajuda raramente é falta de acesso

Quem decide, no ambiente de trabalho, revelar ou não uma questão de saúde mental costuma pesar, de forma bastante racional, o custo percebido contra o benefício percebido dessa revelação, incluindo o risco de ser tratado de forma diferente depois [Toth & Dewa, 2014]. O estudo original foi conduzido com o quadro de funcionários em geral, não especificamente com quem ocupa cargo de liderança, então aplicar o achado a uma cadeira de comando específica é uma extensão razoável, não um dado coletado diretamente sobre executivos. Mas a lógica de custo e benefício ajuda a explicar um padrão real: quanto mais visível o cargo, maior tende a ser o número de pessoas observando qualquer sinal de mudança, e maior o peso percebido de qualquer revelação. Não é falta de plano de saúde nem falta de horário livre na agenda o que mais costuma segurar quem lidera longe de buscar ajuda. É a conta, silenciosa e raramente dita em voz alta, de quanto custaria deixar de parecer a pessoa que sempre resolve tudo.

Nenhum desses mecanismos, a exigência de exibição emocional do cargo, o hábito de monitorar mais a plateia do que o próprio estado, a sensação de fraude que a posição não apaga, o cálculo silencioso de custo e benefício de pedir ajuda, é sinal de fraqueza pessoal. São padrões documentados, que se intensificam justamente com a visibilidade que vem junto do cargo, não apesar dela. Reconhecer que a mente não desliga, mesmo depois de um dia em que tudo pareceu sob controle, é o primeiro ponto de contato com um padrão que este satélite descreve por dentro: o mecanismo completo está em Minha mente não desliga à noite, e isso não é falta de força de vontade.

O que ajuda quando a máscara está funcionando bem demais

Nomear o padrão para uma pessoa específica, não só para si mesmo. A mesma habilidade de regular a própria expressão que sustenta a fachada dificulta perceber, sozinho, quando ela já está custando caro. Dizer em voz alta, para alguém de confiança dentro ou fora do trabalho, costuma ser o primeiro dado real sobre o tamanho do padrão.

Separar "parecer no controle" de "estar bem" como duas métricas diferentes. A primeira é sobre a plateia. A segunda é sobre o próprio estado. Confundir as duas é o que deixa o padrão invisível por anos, inclusive para quem o vive.

Tratar buscar ajuda como a mesma categoria de decisão que já se toma no cargo. Quem lidera decide sob incerteza o tempo inteiro, com informação incompleta, e aceita esse risco calculado no trabalho todos os dias. Procurar avaliação com uma pessoa formada na área é o mesmo tipo de decisão, aplicada a um domínio que o cargo simplesmente não ensinou a tratar assim.

Prestar atenção aos sinais que aparecem fora da sala. Sono que não recupera, irritação que persiste depois que a reunião difícil já terminou, sensação de esgotamento mesmo em tarefas simples: esses sinais tendem a aparecer primeiro fora do horário de trabalho, exatamente onde a fachada relaxa.

Perguntas frequentes

Ansiedade em quem lidera aparece diferente da ansiedade em quem não tem cargo de liderança?

O estado em si não muda de natureza, mas a exibição dele muda bastante. Cargos de liderança pedem, com mais frequência e para mais gente observando, uma regulação da própria expressão que outros cargos pedem menos. O resultado prático é que a ansiedade tende a ficar mais bem disfarçada, não porque seja mais rara em quem lidera, porque tem mais motivo situacional para se esconder.

Se ninguém percebe a minha ansiedade, isso significa que ela não é grave?

Não. Visibilidade externa e gravidade interna são duas medidas diferentes, e cargos de liderança tendem a separar bem essas duas coisas, justamente pela exigência de manter uma expressão estável independente do que se sente por dentro. Ninguém perceber é informação sobre o quanto a fachada está funcionando, não sobre o quanto o padrão interno já se instalou.

Sentir que não mereço estar onde estou é sinal de ansiedade ou só insegurança normal de quem assumiu mais responsabilidade?

Pode ser as duas coisas ao mesmo tempo, e é mais comum do que parece entre quem já chegou lá: um estudo com 242 pessoas em cargos de liderança validou esse padrão especificamente nessa população, associado a níveis mais altos de ansiedade [Rohrmann, Bechtoldt & Leonhardt, 2016]. Isso não fecha diagnóstico sozinho, mas indica que, se esse padrão de pensamento é frequente e vem acompanhado de ansiedade sustentada, vale conversa com uma pessoa formada na área.

Dicas de Leitura

  • Kets de Vries, Manfred F. R. Reflexões sobre Caráter e Liderança. Bookman, 2010, tradução de Ayresnede Casarin da Rocha e Vera Susana Lassance Moreira. Escrito por um psicanalista que atendeu, literalmente no próprio divã, dezenas de executivos reais, sobre a distância entre a máscara de liderança e o que acontece por dentro dela, exatamente o território deste satélite.
  • Mann, Sandi. A Síndrome do Impostor: Como Entender e Superar Essa Insegurança. Vozes, 2021. Trata diretamente do mecanismo do impostor citado no corpo, com foco prático em como reconhecer o padrão sem transformá-lo em autodiagnóstico fechado.
  • Brown, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito. Sextante, 2013, tradução de Joel Macedo (título original Daring Greatly, 2012). Sobre o custo de sustentar uma fachada de invulnerabilidade e o que muda, inclusive no desempenho, quando ela se torna negociável.

Referências (O Fundamento)

  1. Grandey, A. A. (2000). Emotion regulation in the workplace: a new way to conceptualize emotional labor. Journal of Occupational Health Psychology, 5(1), 95-110. DOI: 10.1037/1076-8998.5.1.95
  2. Hewlin, P. F. (2003). And the award for best actor goes to...: facades of conformity in organizational settings. Academy of Management Review, 28(4), 633-642. DOI: 10.5465/amr.2003.10899442
  3. Snyder, M. (1974). Self-monitoring of expressive behavior. Journal of Personality and Social Psychology, 30(4), 526-537. DOI: 10.1037/h0037039
  4. Rohrmann, S., Bechtoldt, M. N., & Leonhardt, M. (2016). Validation of the impostor phenomenon among managers. Frontiers in Psychology, 7, 821. DOI: 10.3389/fpsyg.2016.00821
  5. Toth, K. E., & Dewa, C. S. (2014). Employee decision-making about disclosure of a mental disorder at work. Journal of Occupational Rehabilitation, 24(4), 732-746. DOI: 10.1007/s10926-014-9504-y
  6. Gullifor, D. P., Gardner, W. L., Karam, E. P., Noghani, F., & Cogliser, C. C. (2024). The impostor phenomenon at work: a systematic evidence-based review, conceptual development, and agenda for future research. Journal of Organizational Behavior, 45(2), 234-251. DOI: 10.1002/job.2733

Gérson Neto. drgersonneto.com.

Dr. Gérson Neto · Psicólogo Clínico · CRP 03/22886