O que a cultura foi treinada a enxergar quando um homem negro cuida de si, e por que esse cuidado é um ato de resistência
A voz que estranha o homem negro que descansa, e o custo de uma força sem intervalo
Imagine um homem negro que decidiu se cuidar. Não o homem quebrado, não o retrato do sofrimento escancarado que a gente já aprendeu a reconhecer e a ter pena. Imagine o outro, o que atravessou a decisão silenciosa de que a própria vida interior também merecia atenção. Ele marcou a consulta que adiava havia anos. Começou, desajeitado, a nomear coisas que sentia e nunca soube dizer. Passou a tratar o descanso como compromisso, e não como preguiça a ser vencida. Aprendeu a dizer não a algumas das mil exigências que sempre atendeu no automático. Olhe bem para esse homem, porque ele é o personagem desta carta. E repare, com honestidade, no que a sua cabeça fez no instante em que eu o descrevi. Porque há uma boa chance de que, em algum canto, uma voz tenha estranhado. Tenha achado o gesto um pouco mole, um pouco de luxo, um pouco fora do lugar. E é exatamente sobre essa voz, a que estranha o homem negro que se cuida, que eu preciso conversar com você.
O olhar. O que a cultura foi treinada a enxergar
Convém começar pelo que é mais desconfortável, que é a nossa própria lente. A gente foi educado, coletivamente, a admirar o homem negro em um único registro, o da resistência física e da capacidade de aguentar. O corpo negro que trabalha, que carrega, que joga, que performa, que dá conta do impossível sem reclamar, esse a cultura sabe celebrar. Ela tem estátua para o herói que suportou, tem elogio para o guerreiro que não fraquejou, tem admiração farta para quem transformou dor em produtividade. O que ela não tem, porque nunca precisou aprender a ter, é vocabulário para o homem negro que descansa. Para o que chora sem que isso o diminua. Para o que se senta diante de um profissional e diz estou cansado de ser forte. Diante desse homem, a lente treinada trava, e no lugar do reconhecimento aparece a suspeita. Chama-se de frescura o que é coragem. De acomodação o que é a mais difícil das renúncias. De fraqueza justamente o gesto que exige mais força do que qualquer aguento. Não porque as pessoas sejam más, mas porque foram alfabetizadas num idioma que só tem palavra bonita para o homem negro enquanto ele aguenta, e emudece, ou pior, deforma, quando ele finalmente para para se cuidar.
A norma. Por que a força virou a única linguagem permitida
Essa lente não caiu do céu, ela foi construída, e vale entender como, porque entender desarma. Existe um modelo de masculinidade que atravessa quase todos os homens, o modelo da força, do provimento, do controle, da autossuficiência que nunca pede. É um modelo que já cobra caro de qualquer homem, e a psicologia da saúde do homem documenta bem o preço, quanto mais um sujeito se identifica com a norma rígida de virilidade, menos ele procura ajuda, mais tarde ele chega, e mais ele traduz o próprio sofrimento para dialetos aceitáveis, o cansaço no lugar da tristeza, a irritação no lugar do medo, o excesso de trabalho no lugar do desamparo. Agora sobreponha a esse modelo, já pesado, a experiência específica de ser negro num país que historicamente exigiu do corpo negro exatamente isso, força sem intervalo, produção sem queixa, presença sem direito a colapso. A norma da masculinidade encontra o racismo e as duas se multiplicam. O que resulta é um homem para quem cuidar de si não é só ir contra o que se espera de um homem, é ir contra o que se espera de um homem negro, que é a mais inegociável das cobranças, a de nunca poder parar. O autocuidado, para esse homem, não é uma escolha de bem-estar entre outras. É atravessar duas muralhas ao mesmo tempo.
O número. O custo de uma força sem descanso
Há um jeito frio de medir o que essas muralhas cobram, e ele aparece nos dados de saúde mental da população negra brasileira. Quando se olha para a mortalidade por suicídio entre jovens negros, encontra-se um desnível que não é acaso e não é destino, o índice é quarenta e cinco por cento maior entre jovens negros até vinte e nove anos do que entre jovens brancos da mesma faixa, segundo o Ministério da Saúde. É a tradução, em estatística, de tudo o que descrevi, uma população inteira ensinada a suportar sem nunca aprender a entregar, colocada num terreno que oferece razões de sobra para adoecer e pouquíssimas portas seguras para pedir socorro. Não trago esse número para assustar ninguém, e ele não é uma sentença sobre quem lê. A cifra fala dos que não chegaram, dos que não tiveram como parar a tempo, e fala sobretudo dos mais jovens, de uma armadura que começa a ser vestida cedo. Mas o mesmo esgotamento que aparece, no extremo, naquela estatística, é o que aparece, no cotidiano, no homem competente que não dorme e chama isso de disciplina, no pai que se afasta e chama isso de dar espaço, no profissional admirado e sozinho que chama a própria exaustão de ambição. É por isso que o gesto de se cuidar, num corpo assim, carrega um peso que a gente precisa aprender a enxergar. Cada homem negro que decide cuidar da própria saúde mental está, sem alarde, saindo do lado errado dessa curva. Está fazendo, na intimidade da própria vida, o oposto exato do que a estatística registra no fim.
O campo. Quem finalmente deu nome a esse sofrimento
E aqui entra uma virada esperançosa, porque durante muito tempo esse sofrimento nem nome próprio tinha. A psicologia que se ensinou por décadas neste país tratou o ser humano como se ele não tivesse cor, como se a dor de todos coubesse na mesma gramática, e nesse suposto universalismo o sofrimento específico de ser negro num país racista simplesmente desaparecia, sem palavra que o nomeasse, sem clínica que o acolhesse por inteiro. Isso está mudando. Vem crescendo no Brasil um campo dedicado precisamente a olhar para a saúde mental da população negra com as ferramentas certas, um campo que recusa fingir que raça não atravessa o adoecimento e o cuidado, e que ganha corpo numa geração nova de profissionais que não aceitam mais a neutralidade confortável de antes. O que esse campo faz, no fundo, é um ato de reconhecimento, e reconhecer é metade do cuidar. Ele diz, com método e com dado, que a dor do homem negro é real, tem causas nomeáveis, e merece uma escuta que não o reduza nem o exotize. Quando um homem negro finalmente se senta diante de alguém que enxerga a cor da sua história sem transformá-la em cliché, algo se solta. Ele não precisa mais traduzir a própria vida para caber num molde que não foi feito para ele. E é por isso que dar nome e lugar a esse campo não é academicismo, é infraestrutura de cuidado, é construir, tijolo por tijolo, o lugar onde esse homem enfim pode ser visto inteiro.
A resistência. Por que cuidar de si é recusar uma ordem antiga
Chego, então, ao coração do que eu queria dizer. Existe uma palavra que a gente usa muito e quase sempre no sentido épico, resistência, e a gente costuma imaginá-la em cenas grandiosas, na luta, no enfrentamento visível, no punho erguido. Mas há uma forma de resistência muito mais silenciosa e tão radical quanto, que é a de um homem se recusar a continuar se destruindo em nome de uma imagem que exigiram dele. Quando um homem negro decide dormir o suficiente, quando aprende a nomear a própria angústia em vez de virá-la trabalho, quando atravessa a porta de um consultório sabendo o quanto isso contraria tudo o que lhe ensinaram, ele está desobedecendo a uma ordem antiga, a ordem de aguentar calado até o fim. Cuidar de si, nesse corpo e nesse país, é dizer não a um roteiro que só previa dois destinos para ele, a força útil ou o colapso silencioso. É reivindicar um terceiro, o de existir inteiro, cansado quando está cansado, com direito a descanso e a socorro como qualquer outra pessoa. Isso não sai nos jornais, não vira monumento, muitas vezes não é reconhecido nem por quem o faz. Mas é, no sentido mais concreto que a palavra pode ter, um ato de resistência. A diferença é que essa batalha é travada por dentro, num terreno onde não há plateia, e cuja única testemunha, às vezes, é o próprio homem descobrindo, tarde e com espanto, que sempre teve o direito de se poupar.
Se você está passando por um momento de sofrimento intenso, ou se pensamentos assim têm aparecido, saiba que há escuta gratuita e sigilosa a qualquer hora, todos os dias, pelo Centro de Valorização da Vida, o CVV, no telefone 188 e no site cvv.org.br. Pedir ajuda é a forma mais concreta do cuidado sobre o qual esta carta inteira fala.
Se alguma coisa nesta carta encostou num lugar que você costuma manter guardado, eu não vou te pedir para escancará-lo hoje, não é assim que funciona e seria leviano. Vou te pedir só que reveja a lente, a sua e a que você aponta para os outros. Que da próxima vez que vir um homem, negro ou não, decidir se cuidar, você resista ao velho reflexo de ler aquilo como fraqueza, e considere a hipótese incômoda de estar diante de uma das coisas mais corajosas que ele já fez na vida. E se o homem em questão for você, se você é desses que sempre deram conta e nunca souberam que também podiam descansar, deixo a suspeita que me interessa plantar, a de que cuidar de si nunca foi trair a própria força. É a forma mais madura de honrá-la. A força que te trouxe até aqui foi verdadeira e merece respeito. Mas até a mais dura das armaduras foi feita para proteger alguém que vive dentro dela, e aquele alguém, esse tempo todo, também era você. Existe gente cujo ofício inteiro é caminhar ao lado de quem finalmente decidiu se ver por inteiro. E te ver, de verdade, sempre foi um direito seu.
Dicas de Leitura
- Tornar-se negro, de Neusa Santos Souza. O texto que fundou, no Brasil, a compreensão do custo psíquico de existir sob um olhar que exige do negro prova de valor o tempo inteiro. Leitura que ilumina, por dentro, por que a exigência de aguentar sem descanso adoece, e por que se cuidar, nesse contexto, é recusar uma ferida antiga.
- Pele negra, máscaras brancas, de Frantz Fanon. A obra que descreveu, com uma precisão que ainda dói, o que o racismo faz com a vida interior de quem o atravessa, e como a pessoa negra é empurrada a vestir máscaras que a afastam de si mesma. Companhia densa para entender por que reencontrar a própria verdade, sob esse peso, é ao mesmo tempo cura e resistência.
- A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor, de bell hooks. Talvez o livro mais direto ao coração desta edição. hooks argumenta, com uma ternura desarmante, que os homens não nasceram inimigos da própria vida emocional, foram treinados para se afastar dela, e que reaprender a sentir e a cuidar de si é possível em qualquer idade. Leitura que devolve esperança sem romantizar o tamanho do trabalho.
Referências (O Fundamento)
- Ministério da Saúde. Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros (dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, 2012 a 2016). Aponta que o índice de suicídio entre jovens negros até 29 anos é 45% maior do que entre jovens brancos da mesma faixa etária, e que, a cada dez suicídios de adolescentes e jovens no período, cerca de seis eram de pessoas negras.
- Campo emergente de estudos sobre saúde mental da população negra brasileira e Psicologia Preta, que recusa o falso universalismo e nomeia o sofrimento específico atravessado pela experiência racial. Referem-se a esse campo iniciativas históricas de acolhimento à população negra no país e uma produção acadêmica crescente sobre o tema.
- Literatura sobre comportamento de busca de ajuda (help-seeking) e saúde mental do homem, que associa a alta conformidade a normas rígidas de masculinidade a menor procura por cuidado, atitudes mais negativas diante do tratamento psicológico e maior mascaramento do sofrimento por sintomas socialmente aceitáveis, como irritabilidade e excesso de trabalho.
Gérson Neto. A Trama Oculta.
Dr. Gérson Neto · A Trama Oculta