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A Trama Oculta 29.05.2026 Sex - Psicologia do cotidiano

A IA não substituiu o terapeuta. Escancarou quem nunca teve um.

O debate sobre a máquina substituir o terapeuta é uma conversa de quem teve terapeuta. Por baixo dele, mais da metade do mundo não recebe tratamento, e quem mais usa a IA para desabafar costuma ser quem já tinha acesso. A trama é o acesso, não o algoritmo.

São duas da manhã e alguém digita, num aplicativo, a frase que nunca disse em voz alta para outro ser humano. Conta de um jeito atravessado, com erro de digitação, o que dói faz meses. Do outro lado, em menos de cinco segundos, uma resposta. Calma, organizada, disponível. A pessoa respira diferente. Não porque a resposta foi sábia, mas porque, pela primeira vez naquela noite, alguém, ou alguma coisa, ficou.

Cenas assim deixaram de ser exceção. Levantamentos recentes mostram que uma fatia grande e crescente de adultos já recorreu a uma inteligência artificial para falar da própria saúde mental, e que para muitos isso virou hábito de semana. O debate da moda pergunta se a máquina vai substituir o terapeuta. É uma pergunta legítima. Mas existe outra, por baixo dela, mais incômoda, que quase ninguém faz.

Porque a pergunta da substituição já pressupõe um terapeuta no horizonte para ser substituído. E aqui está a trama oculta deste debate: ele é, em boa medida, uma conversa entre quem tem acesso. A Organização Mundial da Saúde estima que mais da metade das pessoas com transtorno mental no mundo não recebe tratamento algum, e nos países de renda baixa e média esse número passa de 80%. No Brasil, o atendimento privado, caro, fica reservado a uma fatia estreita, e a rede pública convive com listas medidas em meses. Chamamos isso de lacuna de tratamento, um termo de relatório, asséptico, que esconde milhões de quartos escuros onde alguém adoece sozinho. A IA não criou esse abismo. Ela apenas se tornou visível dentro dele.

E há um detalhe que vira o debate do avesso. Quando se olha quem de fato recorre à inteligência artificial para desabafar, a maioria não é o abandonado do sistema. É, com frequência, quem já tem ou já teve terapia, e usa a máquina como mais uma camada, um intervalo entre sessões, um lugar para a ansiedade das três da manhã. O verdadeiro excluído, esse muitas vezes não chega nem ao aplicativo. Ou seja, a IA não está fechando a lacuna de acesso. Está adicionando uma escuta extra para quem já estava do lado de dentro, enquanto quem está de fora segue de fora. O medo de que a máquina roube o terapeuta dos pacientes é, no fundo, um medo de classe média. O escândalo real é mais embaixo.

A neurociência social explica por que a máquina alivia, mesmo sem sentir nada. O cérebro humano não foi feito para processar dor sozinho. Quando alguém divide um medo com outra presença atenta, os circuitos ligados à ameaça baixam a guarda. James Coan mostrou em laboratório que segurar a mão de alguém querido reduz, de forma mensurável, a resposta cerebral ao perigo. O cérebro é um órgão social, regula-se em dupla. O que comove e assusta na mesma medida é que uma resposta de texto bem calibrada, vinda de um sistema que não sente, ainda assim destrava parte desse alívio. Não porque a máquina entenda. Porque o corpo de quem escreve, faminto de escuta, aceita qualquer espelho que não revide.

É exatamente aí que mora o risco e a beleza da mesma coisa. O alívio é real, mas o alívio não é o cuidado. Uma porta de entrada não pode virar o cômodo inteiro. A IA escuta, mas não percebe quando alguém precisa de um remédio, de um diagnóstico, de um encaminhamento, de uma mão que segure no momento exato em que a vida pesa demais. Confundir a primeira porta com o destino final é o erro que pode custar caro, e custar vidas. O ponto não é proibir a porta. É garantir que ela leve a algum lugar com gente dentro.

A leitura madura desse fenômeno não é tecnofobia nem deslumbramento. A IA, neste território, é um termômetro, não a febre. Ela mede, com precisão cruel, a temperatura de uma sociedade que sabe falar com máquinas às duas da manhã melhor do que sabe perguntar a alguém ao lado como anda de verdade. Se tanta gente prefere o teclado ao rosto, o trabalho urgente não é debater se a máquina escuta bem. É perguntar por que tornamos tão raro e tão caro escutar uns aos outros, e por que deixamos a maioria sem nenhuma escuta antes mesmo da primeira linha de código.

Que a máquina tenha aparecido nesse vão não é o fim do humano. É um espelho. E o que ele reflete é uma pergunta que nenhum algoritmo vai responder por nós: o que vamos fazer com o tamanho do silêncio que a máquina, sem querer, acabou de medir.

Dicas de Leitura

Sozinhos: por que esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros, de Sherry Turkle. Anos antes da IA conversacional, a pesquisadora do MIT já mapeava o que vemos agora: a tendência de aceitar a companhia de máquinas justamente quando a companhia humana fica mais difícil. Leitura desconfortável e necessária. [VERIFICAR_AFILIADO] Conexões perdidas, de Johann Hari. Um mergulho nas causas sociais do sofrimento psíquico, desconexão, precariedade, solidão, que a conversa centrada em neuroquímica costuma ignorar. Ajuda a entender por que a lacuna de tratamento é, antes de tudo, uma lacuna de vínculo. [VERIFICAR_AFILIADO] Juntos: o poder da conexão humana em um mundo às vezes solitário, de Vivek Murthy. Escrito pelo ex-cirurgião-geral dos Estados Unidos, trata a solidão como questão de saúde pública, com peso clínico comparável ao do tabagismo. Dá nome e dado ao silêncio do qual a máquina virou refúgio. [VERIFICAR_AFILIADO]

Referências

Coan, J. A., Schaefer, H. S., & Davidson, R. J. (2006). Lending a hand: Social regulation of the neural response to threat. Psychological Science, 17(12), 1032-1039. DOI: 10.1111/j.1467-9280.2006.01832.x

Kohn, R., Saxena, S., Levav, I., & Saraceno, B. (2004). The treatment gap in mental health care. Bulletin of the World Health Organization, 82(11), 858-866.

Patel, V., Saxena, S., Lund, C., et al. (2018). The Lancet Commission on global mental health and sustainable development. The Lancet, 392(10157), 1553-1598. DOI: 10.1016/S0140-6736(18)31612-X

World Health Organization. (2022). World mental health report: Transforming mental health for all. Geneva: WHO.

Rousmaniere, T., et al. (2026). Help-Seeking in the Age of AI: Cross-Sectional Survey of the Use and Perceptions of AI-Based Mental Health Support Among US Adults. JMIR Mental Health, 13, e88196. DOI: 10.2196/88196

Gérson Neto. A Trama Oculta.

Dr. Gerson Neto - A Trama Oculta